Análise FC

O legado da Copa para o futebol brasileiro

Torcedor sofre com o fracasso da seleção brasileira

 

Falou-se exaustivamente antes e durante a Copa do Mundo no Brasil, e agora, após o término do torneio, certamente a discussão sobre o legado deixado pelo mundial ao nosso país continuará por mais um bom tempo.

A utilização (ou não) da maioria dos estádios, o superfaturamento das obras realizadas, o maciço investimento feito em um evento esportivo enquanto o país carece de reformas estruturais nas áreas mais básicas como saúde, educação, segurança pública… Especialmente se levarmos em consideração a realização dos Jogos Olímpicos no Rio de Janeiro, daqui a cerca de dois anos, podemos ter a certeza de que este tema, o tão comentado legado, ainda será a pauta de muitas discussões na política, nas salas de aulas e nos botequins em todo o país.

Entretanto, como mais um apaixonado por futebol, gostaria de falar um pouco sobre as reflexões que esta Copa do Mundo nos obriga a fazer neste momento. Um momento que eu, pessoalmente, nunca imaginei que veria: a derrocada do país do futebol, em seu esporte principal, no quintal de sua própria casa e diante de milhões que acreditavam que desta vez, seria diferente do primeiro mundial disputado em nosso território. E no final das contas, de fato, foi muito diferente.

A histórica humilhação na derrota por 7 gols contra a Alemanha foi a “coroação” da degradação recente do futebol pentacampeão. Honestamente, diria que a seleção brasileira foi até longe demais nesta Copa, levando em consideração o péssimo futebol apresentado. Teve oportunidades de cair antes na competição, sendo salva pela trave no chute do chileno Pinilla, e pela reação tardia da seleção colombiana, em partida que o Brasil atuou realmente bem durante apenas os 45 minutos iniciais. E aos trancos e barrancos, chegou às semifinais, e mesmo sem seu melhor jogador, encheu de esperança os desavisados, sedentos pela sexta estrela.

A Alemanha, adversário da partida e agora, nosso maior algoz em um jogo de Copa do Mundo, foi de longe a equipe com o melhor planejamento, e que mais se preparou para o torneio. E mesmo com seus jogadores se divertindo e aproveitando cada minuto das belezas naturais, das praias, e da hospitalidade do brasileiro, manteve-se sempre focada no objetivo final de levantar a taça.

É muito fácil apontar erros depois que a “vaca vai pro brejo”. Mas neste caso, é sempre necessário que se diga que os erros cometidos na maior vergonha da história da seleção nacional, foram os mesmos que estão se arrastando há muito tempo, e agora, mais do que nunca, se mostram enraizados em nosso futebol. Não falo apenas em falta de variação tática, deficiência técnica, erro na escalação, e outros pontos pertinentes quando analisamos somente o resultado de uma partida isoladamente. O buraco é muito mais embaixo, pois os maiores problemas são estruturais, e me levam sempre ao mesmo questionamento: ainda somos o país do futebol?

Em 2006, tivemos a última seleção “galática” em uma Copa, com Ronaldinho, naquela época melhor jogador do mundo. Ronaldo, prestes a se tornar o maior artilheiro da história das copas. Sem falar em Adriano, Kaká, Roberto Carlos, Cafu, e tantos outros astros. Durante a preparação, tudo era festa. O oba-oba foi tão grande, que foi considerado o responsável pela eliminação brasileira. O que na realidade, foi um enorme bode expiatório para, acima de tudo, a falta de humildade e comprometimento daquela equipe. O reflexo de toda essa “mala”, vemos até nas gerações de jogadores mais jovens, e até naquelas que ainda nem surgiram.

Para os jovens de hoje, ainda inspirados pela “Geração Ronaldinho”, tudo é “boleiragem”, “fera”, jóias e outros adornos, tatuagens, Instagram, cortes de cabelo, dentre outras palhaçadas que tiram o foco do atleta antes mesmo de sua estréia pelo profissional. O resultado disso tudo é cada geração surgindo mais deslumbrada que a outra, e antes mesmo de se firmarem como profissionais e evoluírem como atletas, já exigem salários fora dos padrões e regalias, sob pena de abandonar sem remorso os clubes que por 5, 6 ou 7 anos lhe deram a oportunidade de um dia realizar o sonho de ser jogador. É péssimo para o clube, mas o atleta também perde muito.

Recentemente, Jean Chera, um ex-atleta da base do Santos, acertou com um clube da Romênia e, 10 dias depois, foi dispensado. Com apenas 19 anos, o jovem já passou por Santos, Flamengo, Atlético-PR, Cruzeiro, Gênoa-ITA, Oeste-SP, e até hoje, juro não me recordar de nenhuma partida dele como profissional, mesmo sendo desde cedo considerado uma promessa de enorme potencial. Com esta mesma idade, Divock Origi disputou a Copa do Mundo pela Bélgica, se destacando e recebendo sondagens de gigantes europeus, como o Liverpool. Não posso deixar de mencionar também que no último Campeonato Sul-americano sub-20, em 2013, o Brasil sequer se classificou à segunda fase…

Obviamente, a culpa não é somente dos atletas. Nos últimos 5 anos, o Brasil venceu os Sul-americanos Sub-20 de 2009 e 2011, sendo também campeão mundial na categoria neste mesmo ano. Cerca de 35 jogadores passaram por estas equipes, levantando taças com a camisa da seleção brasileira. Teoricamente, esta safra de atletas estaria presente em grande parte no elenco de 2014.

Contudo, apenas DOIS jogadores (Neymar e Oscar) estiveram na Copa, evidenciando que a renovação simplesmente não está acontecendo. A Alemanha também foi campeã européia sub-21 em 2009, e mesmo não se qualificando para a edição de 2011, e sendo eliminada na primeira fase em 2013, levou 7 jogadores com passagem por estas seleções de base neste mesmo espaço de tempo. Nossos jogadores são tão ruins assim, ou os alemães são simplesmente melhores? Nem um, nem outro. Penso que a culpa neste caso, deve-se ao atleta, pelos motivos já mencionados, aos clubes, por não saberem trabalhar sua categorias de base com eficiência, sendo que muitos inclusive raramente oferecem oportunidades para jogadores da base atuarem com regularidade no time profissional. E claro, a muitos empresários, que com livre acesso aos clubes, aliciam jogadores cada vez mais jovens, sendo peças chave em transferências que culminam no sumiço precoce do que poderia ser um grande jogador.

No que diz respeito aos “professores”, a situação também não anda favorável. Além de Felipão e o “ex-aposentado” Parreira, outros nomes de peso, com conquistas importantes no passado, já dão sinais de que estão parados no tempo. Luxemburgo, Muricy, Abel Braga, Paulo Autuori, Oswaldo de Oliveira,  e tantos outros, colecionam uma série de trabalhos para se esquecer nos clubes por onde passaram recentemente. E enquanto vemos nossos treinadores em franca decadência, nossos vizinhos da América do Sul conseguem emplacar um treinador atrás do outro em seleções e no futebol europeu: José Pekerman (Colômbia), Jorge Samapoli (Chile), Diego Simeone (Atlético de Madrid), Gerardo Martino (ex-Barcelona), Marcelo Bielsa (Olympique), Manuel Pellegrini (Man. City) e  Maurício Pochettino (Tottenham) são alguns dos técnicos sul-americanos que se firmaram atualmente no futebol mundial. No Brasil, temos vagas lembranças dos insucessos de Luxemburgo no Real Madrid (2005), Leonardo, no Milan e na Internazionale (2009-2011), e do próprio Felipão, no Chelsea (2008).

E qual seria o papel da CBF nisso tudo? À confederação nacional, caberia simplesmente a função de organizar nosso futebol e tomar medidas para melhorá-lo. Muito já se falou sobre as mudanças necessárias no calendário, fair play financeiro, e a importância de evitar que os clubes atrasem os salários dos jogadores. Mas a alçada da CBF deveria ir muito além disso. É necessário fiscalizar de perto as federações regionais, incentivando o futebol no interior do país com torneios melhor organizados e financeiramente rentáveis para os clubes (incluindo categorias de base); movimentar-se junto ao governo para alterações na Lei do Passe, com o intuito de afastar empresários dos futuros atletas; zelar pela paz nos estádios não apenas com campanhas que em nada ajudam, mas com ações efetivas como a manutenção de equipes particulares  especializadas em segurança envolvendo grandes multidões; dentre outras medidas básicas. Tudo isso talvez já estivesse em prática, não fosse pelo fato da inoxidável cúpula da CBF ser movida quase que exclusivamente por interesses próprios.

A soma de todos estes fatores resulta em um Brasileirão cada vez mais fraco, onde veteranos em final de carreira conseguem se destacar sem dificuldade.  A queda de qualidade do espetáculo futebol, aliada também a violência, afasta e muito o público dos estádios. Além do impacto direto na renda, sutilmente percebemos a perda de interesse coletivo pelo esporte, que influencia na queda da audiência também na TV, e consequentemente, em menores cotas de transmissão pagas aos clubes, afetando principalmente os clubes menos midiáticos, por assim dizer. Poderíamos nos alongar bastante sobre este efeito dominó, pois o futebol, apesar de ainda ser o esporte favorito no país, não desperta a mesma paixão como era uma década atrás.

Esportivamente, o maior legado que esta Copa nos deixou foi este gigantesco choque de realidade. Não temos mais os melhores jogadores, os melhores técnicos, o melhor futebol. E demorou muito para, enquanto nação e torcida, percebêssemos que paramos no tempo enquanto o mundo evoluía. Que à seleção brasileira não possa mais ser atribuída a “obrigação” de ser campeã em todos os torneios que participe, pois o resto do mundo já nos alcançou e agora corre para nos ultrapassar. Será importante, deste ponto em diante, incansáveis reflexões acerca de como o futebol está sendo administrado, trabalhado e jogado no Brasil. E particularmente, gostaria de ver uma reformulação total no futebol brasileiro após esse vexame, embora tenha a certeza de que isto não irá ocorrer. Nos resta apenas torcer apenas para que daqui pra frente, se não voltarmos a ser o país do futebol, pelo menos que não sejamos mais motivos de chacota mundial, no esporte onde há pouco tempo, nossa supremacia ainda era incontestável.

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Publicado às 22 de julho de 2014 por em Opinião e marcado , .

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